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sábado, 13 de setembro de 2014

O último Viking nos Açores


Ilha Terceira, Serra do Cume (Altar, tempo presente)
A neblina dissipou-se, e com ela a chuva caprichosa própria desta terra, mas o vento, orgulhoso, característico da serra permaneceu para me vendar os olhos com meu cabelo. Tentativa infrutífera de me deter, pois, este caminho já o sabia de cor, tantas foram as vezes percorridas nele. Não me incomoda esta ventosidade, lembra-me de casa. Amanhecia sem o céu dar graça ao sol, as nuvens egoístas guardavam-no só para si. Não fosse o que me esperava no topo, a caminhada podia tornar-se penosa para alguém da minha idade. Meus compatriotas troçam dizendo que eu jamais conhecerei Valhalla (1), tantas eram as minhas preces a Tyr (2). Não rezava à divindade para me poupar a vida, acolheria de bom grado uma boa morte numa disputa como todo guerreiro, a maior das honras, se fosse essa a sua vontade. Pedia antes que guiasse meus barcos com sua estrela, não tenho culpa se com isso também guiava meu machado pelo aglomerado de inimigos.
Circundando as pedras sagradas, depois de alguma erva húmida pisada, o altar. Chegado lá tracei um sorriso sinuoso contrastando com meu interior reto. Contemplei do planalto a magnífica paisagem à minha frente. Custava-me deixar esta terra fértil. Para os de ocidente somos bárbaros saqueadores, para os de oriente somos sanguinários, no sul vêem-nos como demónios, mas no norte nós apenas somos. Adoramos riquezas como qualquer homem ambicioso de qualquer nação, mas aquilo que temos como maior valor é a terra. Esta é a razão da nossa inquietude e expansão, não existe maior tesouro. Aqueles que não percebem isso têm-nas em abundancia e veem-lhe devolvido o suor quer de verão como de inverno sem penúria de comida.
Meus dedos cursam a runa de Tyr que cravei, mas descanso meus olhos noutra runa, ali muito antes do meu tempo. Olhando em redor absorvo a solidão em que me encontro, e percebo o porquê de terem escolhido a runa de Is (3). A busca de isolamento para renovação pessoal e ao mesmo tempo prestar tributo a esta linda terra e ao que nos pode dar.
O altar era de rocha solida brotada do solo, no seu centro uma bacia que a tal chuva briosa mantinha cheia; um lugar espiritual. Lavei o meu rosto e cabelos, purificando-me. Os suspiros vencem-me vezes sem conta, vou partir deste pouso descoberto por nós tolos que pusemos à prova mitos de outros. Meus filhos já seguiram nos seus drakares (4) no dia anterior, mas eu não podia partir sem antes vir aqui, sem antes a ver. Obrigações que nos roubam de um sonho e riscam da história o nome que seria imortalizado, Lofn filho de Aegir. Agora, como os indígenas desta terra antes de mim, eu vou partir para nunca mais voltar, e deixar esta terra ser reclamada por quem vier depois de mim.
Ilha Terceira
Desde que me lembro, que tenho esta necessidade recorrente de encontrar novos mundos. Não necessariamente para lá do horizonte, mas algo fantástico escondido no meio de nós. Esta não era uma ilha sem seus segredos, vejo-os adormecidos em todo o meu redor, gigantes de pedra, faces e punhos repousando no solo até Ragnarok (4), quando medirão forças com os exércitos de Odin (5).
A minha curiosidade vai para além da do meu povo e isso vem de um sentimento, não, de uma certeza, não pertenço a lado algum. Como memória mais remota lembro-me de olhar o meu reflexo na água como estou agora e perguntar-me: “Que mundo se esconde por trás da superfície de água que me reflete?”. Tentava desmascarar o meu sósia num movimento que não o meu e até encurralá-lo. Perguntava-me se teria uma vida ligeiramente diferente da minha e se pensava da mesma forma que eu.
Ilha Terceira
O ano já me ilude, mas foi numa lua como a que nasci que meu reflexo e eu finalmente rompemos com o que era suposto fazermos e de um salto ficou do meu lado, tão real e de carne e osso como eu. Não bastando a manifestação portentosa, tomou forma feminina rivalizando com a maior das belezas de Asgard (6). Não foi difícil reconhecer-lhe uma versão melhorada de mim mesmo. Ela que roubou-me a atenção e fez de mim também ladrão.
O vento é finalmente domado, fazendo prever o que vinha a seguir. Em rocha pura, vejo o borbulhar da água ferver sem outra explicação que não uma fora deste mundo. Do vapor vejo-a tomar forma. Meus joelhos enfraquecem e os meus olhos pousam no chão, Dalla era novamente minha para adorar. Seu gentil toque afaga-me a face barbuda. Não me disse nada, mas fez-me sentir muito. Segredo-lhe que nos veríamos novamente, mas continuei abraçado pelo silêncio. Amuada, triste com a minha partida, não que não nos fossemos ver novamente, existe altares semelhantes de onde venho, determinantes às nossas visitas insulares e parcas de uma relação de vontade com limites. Não a censuro, meu coração emudecia também, o mundo melindrava-me sem ela. Embora ela não deixasse-me dizê-lo, eu amava-a como um ser de livre pensamento que pensa freneticamente e como um barco ancorado ao sentimento. Veio a mim à alguns anos respondendo a uma prece silenciosa que não me atrevi vozeirar, e partilhámos desde então o que é negado àqueles de mente afunilada. Por fim Dalla desvaneceu-se no ar, mesmo antes de duas figuras ao longe pescarem-me o olhar, manchando o verde dominante com seus escudos redondos pintados de vermelho e azul. Era altura de ir.




(1)      Salão dos guerreiros caídos em batalha
(2)      Deus da batalha
(3)      Gelo
(4)      Fim do mundo
(5)      Rei dos Deuses
(6)      Reino dos Deuses
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domingo, 8 de junho de 2014

Torre Solitária

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Num reino antigo de nome esquecido, no meio dos escombros de um castelo, havia uma única torre hirta. Lá, em clausura, vivia uma princesa, mas não uma princesa vulgar. Fruto de uma poderosa união, entre um rei terreno e uma sacerdotisa de Avalon. Diziam poder realizar os sonhos daquele que a libertasse, evento despoletado inadvertidamente quando o seu pretendente, um temente da sua herança mágica, exerceu o seu direito de posse, trancando-a ali.
Não levou muito até à ganancia do Homem empurrar muitos àquele lugar. Cavaleiros singulares providos de coragem, ladrões pagos por homens de posses e até senhores de guerra marchando seus exércitos. Batalhas incessantes tornaram aquela, uma terra erma.
Foi só quando a esperança desvaneceu, que o mais improvável dos homens lhe entrou pela janela. Confundido como um salvador, ela prostrou-se perante ele, era sua a recompensa. Ao jovem pastor, perdido e fugido de um campo onde a morte lhe copiava cada passo foi necessário ser explicado a profecia em primeira mão.
Um plebeu com sonhos, mas um plebeu realista, acreditou já ser muito, pedir a mão em casamento de uma mulher de berço nobre, tão formosa.
Sob o manto da noite fugiriam e o acordo seria selado, mas por um capricho dos deuses, num silvo de mil setas, uma, cravou-se no pastor e a morte reclamou quem surgiu no dia anterior.
Desolada, furiosa, farta, a princesa desceu a torre sozinha e para surpresa sua, passou despercebida. Os homens não a conseguiam ver, cegos pela ganância.
E assim, a profecia cumpriu-se, a princesa realizou os sonhos de que quem a libertou, realizou os seus próprios sonhos dali para a frente. 

quarta-feira, 19 de março de 2014

Parar o Tempo

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"O esforço para unir a sabedoria e o poder raramente dá certo e somente por tempo muito curto" (Albert Einstein)


Eu nasci diferente.
Ninguém sabe a nossa origem, mas entre o que sabemos fica a certeza que chegará o dia que nossos poderes se revelarão. No entanto nada me pôde preparar para o que viria. É diferente para cada Especial, a mim calhou-me o poder de parar o tempo. Enquanto criança imaginei muitas vezes que tipo de super-herói me tornaria, que feitos magníficos me estavam reservados. Era uma lógica coerente. Com capacidades sobre-humanas eu me tornaria um herói, como os muitos que seguia nas séries de animação. Mas quando recebi as minhas habilidades em adolescente ou pelo menos com a mentalidade de um, perdi-me em partidas. Na zona morta, como a chamo, eu caminhava enquanto tudo ficava travado. Imaginem as possibilidades. Brinquei com as pessoas, coisas simples ao princípio, baixar calças, tapar olhos, trocar bebidas, lembro-me um dia de entrar numa missa e despir o padre e ainda ter pachorra de despir umas beatas, só para depois me deliciar com as suas reações quando voltava a fazer a roda do tempo girar. Não me lembro de rir tanto como naquela altura. Com a experiência as minhas partidas aumentaram de tom e malvadez.
Eu nunca me vi como um vilão, mas nunca me tornei o herói que me havia esboçado. Meu sentido de justiça ainda me fez escrever alguns certos de errados, mas na maioria das vezes para benefício próprio. Recorri a humilhações e até a agressões físicas. Não havia onde eu não pudesse ir, dinheiro passou a não ser problema. Não havia o que eu não pudesse fazer, as mulheres… arrogantes, pretensiosas, convencidas, míopes para alguém como eu, passaram a estar ao meu alcance, não havia quem eu não pudesse ter. Eu era verdadeiramente livre, as regras não se aplicavam a mim, caminhava as ruas como um deus incógnito.
Mas aí ela veio e mudou a ordem natural das coisas. Ela viu-me antes de eu parar o tempo, reparou em mim, viu-me por quem eu era e simpatizou comigo. Sabia que a tinha de ter, mas lutei contra o facilitismo, não queria como o tinha feito até ali. Não foi fácil, demorou, mas consegui-a e foi melhor do que pude imaginar… era recíproco. E a nossa primeira vez, foi mesmo a primeira vez.
Amei-a tanto que cheguei mesmo a partilhar o meu segredo com ela. Divertimo-nos tanto, pude-a levar comigo, passou a ser minha companheira nas minhas aventuras. Orgulhoso mostrava-lhe o meu mundo e eu via-o pelos seus olhos.  Mostrou-me uma maneira diferente de apreciar o meu dom (como ela o chamava). Por um momento acreditei que ela me fosse tornar uma pessoa melhor e ela o fez… por um certo período. Fez-me jurar nunca usar meu dom contra ela. Uma promessa que não consegui manter. Sempre que senti a hipótese de a perder, usei os meus poderes para a redirecionar na minha direção.
O triste é que agora não sei se é minha porque quer, ou se é minha porque não lhe dei outra chance. 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A Oferenda da Bruxa

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Boas,
Neste que é o dia de São Valentim, trago-vos uma short storie especialmente preparada para a ocasião, mas com um toque a meu jeito:


Sinion é uma cidade primaveril, convida o sol a entrar, e presenteia os habitantes com um espetáculo de cores impar. O segredo está nas grandes vidraças das casas, característica própria só de Sinion. A festa das Flores está à porta, e as ruas estendem-se com o arco-íris.
Tamanha beleza era de encantar qualquer um, mas Zimar oferecia a sua admiração à pessoa que segurava seu braço, enchendo-o de orgulho, porque no meio de tanto fascino, Jocil a filha do cerieiro ainda roubava a atenção de muita gente mas entregava a sua só a ele. A perplexidade do noivado ainda via replicações meses depois, e muitos não se continham em questionar-se, e até ao próprio Zimar, do como ter conseguido tal proeza. De como alguém com uma beleza tão fora do comum podia ficar depois com; bem, alguém tão comum.
Jocil era, indiscutivelmente, a donzela mais bela da cidade, o que a tornava ainda mais interessante é que não o via. Era, de facto, tão bonita que intimidava os mais audazes a nunca se declarar, resposta sempre oferecida com um sorriso pelo jovem Zimar, e que era verdade, mas que nunca dava descanso à perplexidade dos que questionavam, talvez porque Zimar, jovem esguio, aprendiz de ferreiro, tinha desperdiçado todos os chamamentos de coragem na sua vida. A única verdadeira coragem que alguma mostrou foi quando embrenhou-se no bosque, bem para além do que a maioria se aventurou, um segredo seu. Lá, Zimar procurou o que se acreditava impossível, mas tudo é possível para aqueles com os talentos certos.
Bem embrenhado no bosque, onde a luz diminui e o ar densa-se, havia um casebre e nele vivia uma bruxa. O aprendiz de ferreiro ofereceu todas as suas economias, e até a arte do seu trabalho por um ano, para pagar o que tinha ido lá buscar, com tanta querença. Pensou ser brincadeira ao principio, mas depois, pechincha de uma velha que já não devia ter todas as suas capacidades mentais intactas, quando a bruxa lhe disse ser paga suficiente apenas o desenrolar de eventos que tal coisa lhe iria trazer.
Jocil tirara-lhe quase todo o baixo auto-estima que nele sempre existiu, realçando-o acima de tantos e a par dos poucos valorosos do reino. Explicou-lhe a verdadeira importância que teve, por exemplo, na defesa do reino, dois anos antes quando as hordas bárbaras desceram do norte, “Foi com as armas que criaste que puderam mante-los afastados”. Sim havia valor naquilo que fazia, mesmo que nem de um ferreiro, por inteiro, se tratasse, ela pelo menos o via assim, e a opinião dela era tudo o que importava.
Jocil tinha sido a melhor coisa que lhe acontecera, e em troca ele dava-lhe o melhor de si mesmo, mas em seu segredo retinha um receio que explicava o quase da purga da sua baixa auto estima. Quando, certa manhã, acordara para ver sua amada segurar o objecto do seu afogo, seu coração estacou. Receara acima de tudo ser descoberto, te-la decidir entre esta felicidade fabricada ou a espontânea trazida a todos. Pois cada dia, com discrição, conseguira fazê-la beber um pouco da poção do amor, adquirida naquele dia no bosque.
Tudo vem com um preço; não o percebera na altura, mas percebia-o agora. A delicia no olhar da bruxa com a angustia que o seguiria até o desvendar de tudo, até à possibilidade de voltar a ser quem era, insignificante.



domingo, 19 de janeiro de 2014

A tragédia de Durandil e Brawn

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Era uma besta atormentada até a conhecer. Aqui não houve feitiço ou maldição, antes obra sua, produto de uma mente com uma ferida permanente. Havia uma melancolia que lhe roubava a condição humana. Por cada sonho estilhaçado a besta crescia mais forte, insegurança alimentava a sua raiva. Poderosa a besta era.
Não foi aço que ganhou naquele dia, mas uma beleza sem paralelo mesmo entre os da sua espécie. Elfos são imortais e constantes, temem mudança acima de tudo, mas Durandil luz da lua não era como os seus parentes. As garantias de uma imortalidade fácil haviam-lhe tirado a cor do seu coração. Não há noção do quão mau é preciso estar para se querer mudar.
Antes ele ainda conseguia disfarçar-se entre os seus, indetetável, mas foi só depois dela que voltou a homem por completo, habilidade bem para além de suas capacidades.
Durandil pensava que a força que o tornou um monstro o tornaria agora um paladino, mas não funcionava assim. Não existem heróis aqui, vulnerável se tornou. Só por ela os seus atos tinham sentido. A sempre mudável embarrou em apatia. 
Brawn gostaria de ter coragem para tirar a própria vida, era ao menos poder sobre si, face ao precipício que se adivinhava alargar.
Em seus sonhos ela ainda batia nos litorais, lembrando-o de quem foi e do seu potencial. Eternamente cravada em tudo o que via, seus olhos sabiam ter pousado em verdadeira beleza.
Não havia felicidade longe dela.



sábado, 11 de janeiro de 2014

Folkvang o palácio de Freya (Parte 2/2)

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O guerreiro da esquerda chamava-se Olafh. Começou e foi muito introspetivo. Não mencionou qualquer parentesco ou fidelidade para ninguém. Realçou a sua coragem por ter participado nos saques durante dez anos e saído triunfante. Congratulou-se com grandes feitos enquanto outros perante semelhantes desafios não haviam conseguido. Apregoava liberdade e domínio de si mesmo. Resumindo… era o melhor e o melhor pelo exemplo.
- Estás a convencer-me dessa coragem ou a ti? Interpôs Freya – Eu ainda vejo fragilidade por detrás dessa armadura espessa. Quem pode dizer que não tremias face ao que outros tiveram de enfrentar?
A armadura de repente ficou demasiado pesada para Olafh suportar. Tornou-se claro que Freya já sabia tudo sobre nós, tanto que nos escolheu aos três para uma decisão final que julgo pesaria sob a nossa apresentação.
Chegou a vez de Erick Barbas longas. Sua abordagem foi bem diferente. Depois de uma breve introdução de si mesmo, virou a sua atenção aos outros candidatos para assim fazer sobressair a sua coragem. Disse termos morto muito menos homens que ele e deplorou a nossa maneira de lutar. Era um verdadeiro nórdico (palavras suas), disse-o tão afincadamente e explicou o porquê, encontrando defeitos baseados apenas

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Folkvang o palácio de Freya (Parte 1/2)

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Estávamos os três ali para ser julgados. A gruta era ampla e as escadas em frente talhadas na pedra fria. Trinta e dois degraus ao todo, tive tempo de os contar. No teto a rocha pareceu ganhar a forma de dentes e o seu gotejar de água gelada, um salivar para nos consumir, ou assim pensei. A mente vagueia na demora da espera.
No chão molhado a água encontrava o seu caminho até à saída, onde a queda depois seria mais de mil pés por encosta ingreme. Quanto demorámos para ali chegar, só posso adivinhar, mas o como eu já o vim a aceitar, por muito inacreditável que fosse.
Meu corpo parecia são e saudável, minha ferida mortal havia desaparecido. Nem vi quem segurava a lança que me trespassou por entre tanto caos e aglomerado de braços.
Olhei para trás e ainda as via lá fora, as valkirias que nos trouxeram até aqui. Sua beleza contrastava com um semblante de morte quando a luz lhes tocava de um certo jeito.

Mortos, todos nós à espera do mesmo destino. Do meu lado esquerdo um guerreiro de armadura espessa, com uma espada longa embainhada e segurando um escudo estranho nas minhas terras, retangular e longo invés de circular. Expoles do ocidente com certeza. Seu elmo escondia-lhe o rosto, não sabia dizer se tinha lutado do nosso lado ou não.
Já no meu flanco direito, um homem possante com o dobro da minha idade, coberto por peles. A racha no chão do seu machado posado, chamou-me a atenção. Sua barba espeça escondia-lhe seus traços. Seria preciso muita força para o conseguir brandir como deve ser. Seu nome era Erick barbas longas, chefe em Trondheim, eu conhecia-o.
O que aconteceu a seguir fez sombra a tudo até ali testemunhado. A sua graça ao descer as escadas derrotou qualquer defesa ainda desafiadora dos ali presentes. Seus cabelos longos loiros refletiam o pouco de luz que penetrava aqueles domínios e sua pele esbranquiçada denotava falta de encontro com o Sol. Estavam a admirar a mulher mais linda que alguma vez viram.
 Contemplou os presentes com um sorriso que só podia ser caracterizado como perfeito para quem de

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Dragão e Coragem

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"Muitos que vivem merecem morrer. Alguns que morrem merecem viver. Você pode lhes dar a vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém a morte, pois mesmo os mais sábios não podem ver os dois lados." (Gandalf, Senhor dos Anéis)

- Olhei por cima do ombro e soube-o logo. Não íamos conseguir. Empurrei meu pai e fui para o lado oposto, gritei o mais alto que pude, “corre”, sabendo muito bem o resultado daquela ação. Só um teria oportunidade de escapar.
O vento do bater de suas asas derrubou-me até sentir o sabor da areia. Virei-me, certo de encontrar um fim horroroso, mas o que vi vai assombrar-me os sonhos para o resto de minha vida. – O resto do hidromel desaparece com um só trago e a caneca aterra violentamente sobre a mesa.
Estamos na taverna Telhado Torto, da posse de Imahir. Ali as noites são longas e fervorosas. Onde o mais baixo dos homens pode esquecer quem é e ter mais divertimento que um rei. No espeto havia sempre carne e a bom preço, duas raridades sob quaisquer padrões de classe social. Todos sabiam de onde vinha aquela carne, mas a maioria não se importava, podiam encher a barriga como qualquer senhor e a cidade tolerava Imahir por manter as ruas limpas dos ratos.
Sim, era um local de convívio frequentado por muitos, um bom refúgio para o inverno com o crepitar de madeira.
O bardo local conhecido apenas como Lundin, que na língua ancestral significava pássaro cantante, era frequentador assíduo do Telhado Torto. Fazia da mente de cada um telas onde pintava retratos com as canções de bravura de outrora, mas hoje mantinha-se em silêncio e dava lugar ao relato extraordinário de um forasteiro de nome Gaff, que vivia na outra margem do rio Plurul. Ele falava de um dragão que assolava aqueles lados e que dizimou a sua aldeia pesqueira.
Muitos envolviam Gaff tanto maravilhados como inquietados, outros respondiam só à reunião de corpos, dividindo a sua atenção com as meretrizes que enganavam bem os olhos depois de algumas bebidas, suas experiencias para conseguirem facilmente o resto.
- Eu só espero que tenha sido rápido. – Continuou Gaff. – Eu escondi-me por detrás das rochas pretas na margem, enquanto ouvia… o quebrar do que só podiam ser os ossos do… - Levou a mão á face como se conseguisse apagar o que presenciou.
O silêncio no Telhado Torto era incomum e mesmo numa noite destas havia sempre algum ruido de fundo. Quatro soldados, riam numa mesa das traseiras e a palavra cobarde voou através da sala. Alguns começaram a dispersar, enquanto outros permaneceram para assistir o desenrolar.
Numa taberna para as classes inferiores, tem de se criar uma certa escama contra insultos e outras ofensas, senão haveria brigas todos os dias. Por outro lado Gaff não aguentava desaforo de ninguém, ou pelo menos vociferara sempre no passado. O seu era um temperamento quente, mas nessa noite não encontrou nada em si para puxar a faca da cintura. Não era a opinião dos outros, mas a sua que o destroçava.
Os soldados atravessavam aquele punhado de gente com Simo, à frente, evitando as vigas de madeira baixas.
- Eu sou Simo, filho do Simian um dos cinquenta que fez parte da comitiva que à dez anos matou o ultimo dragão deste lado do rio. Enoja-me o facto de partilhar a mesma divisão com um cobarde. – Agarrou o pomo da espada com firmeza.  
Um idoso segura-lhe o braço e pede-lhe calma, afinal tratava-se de um dragão e ninguém ali para além do soldado, tinha pensado tal coisa.
Os dragões dominam os céus e lembram os homens muitas vezes do seu lugar na terra. Alguns acreditam que os dragões são animais como outros quaisquer. Predadores que caçam indiscriminadamente e nós só estamos abaixo da cadeia alimentar. Outros acreditam que existe inteligência e malicia por detrás dos seus atos. O nosso amigo bardo podiam entoar as canções dos muitos imortalizados como Grimul o Horrendo ou Selta a Gananciosa protetora de tesouros. Canções que davam razão a essa maneira de pensar. Para outros tantos os dragões são até criaturas para idolatrar tanto quanto temer. Seja como for, um dragão nunca é uma criatura a ignorar, não existem seres mais poderosos, só ultrapassados em fascínio pela elusiva fénix e embora superados em tamanho pelas serpentes marinhas dos mares nórdicos, diz-se que bem para leste alguns dragões até dominavam a água invés do fogo. Os dragões são sem dúvida os reis de todos os seres.
- Todos sabem que dragões só são mortos à traição, enquanto dormem. – Lembrou Imahir por detrás do balcão.
- Desonras a memória de meu pai?! – Simon vê o seu precipitado desembainhar de espada travado por seus colegas.
Não foi intenção de Imahir maldizer o bom nome de Simian, mas o filho… prepotente, arrogante, vil… mal-amado naquelas paragens. Imahir tinha desgosto de Simo nunca ter chateado o homem errado na estalagem que o calasse de vez. Além de tudo não disse mentira nenhuma, seria loucura ir contra uma criatura tão imponente de igual para igual. Segundo diz a lenda o único que conseguiu enfrentar e matar um dragão acordado foi Fanhir Espada Longa, mas ninguém sabe bem como.
- Uns destes dias Imahir filho de Imuhul… - Suas palavras afogam-se.
Um guincho estridente gela depressa os ânimos no Telhado Torto. Olhares prospetivos só encontram caras sem respostas.
- Aqui está a oportunidade de Simo, soldado sob o brasão da águia de mostrar o seu valor. – Quebrou o silêncio Gaff, que se viu novamente o centro das atenções. – Um rio não é barreira para um dragão.
Outro guincho e desta vez acompanhado também por gritos do exterior. O caos instalou-se na estalagem e todos se apressaram para a saída.
Fogo e morte é tudo o que os esperava. O calor das labaredas acolheu-os e uma enorme sombra ondulava pelos telhados e ruas. Muita gente a correr, enquanto alguns presos aos já mortos no chão. A noite fez-se dia com um vermelho de fogo e sangue. Olhos no céu e parecia impossível não ver tamanha criatura, mas a destruição em redor era bem visível, ruína.
Soldados… é difícil correr para o perigo enquanto todas as fibras do nosso corpo nos empurram na direção oposta. Diante do que pareceu o fracasso irremediável, deram a retirada prematura só para ver o fogo servir-lhes de cobertor. Entre as vítimas, Simo.
Levou mais tempo, mas a cidade caiu tal como a aldeia do outro lado de Plurul.
Gaff mais uma vez escapou, fugiu o mais depressa que suas pernas o permitiram, desta vez mergulhando na floresta invés das águas. Tinha sobrevivido.
Coragem é um interesse curioso. Muitos falam nela e acreditam a reconhecer quando surge, mas será que o sabem mesmo? Ao contrário de covardia, o medo é uma coisa útil, já a idiotice muitas vezes é confundida com coragem. Coragem debaixo de fogo é coragem feita de ocasião. Não julguem os atos de uns sem saber a sua total extensão.
Os trilhos da floresta eram cheios por dúzias de pessoas fugindo como podiam, já Gaff levava uma criança orfã nos braços. Foi o medo de Gaff à três semanas que regeu sobre o fado desta criança perdida agora. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O Gigante e a "Menina"

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Igor era um gigante afável. Passou grande parte da sua existência no vale, mas ainda carregava consigo as correntes de uma vida que não queria lembrar.
Aventurava-se agora no extremo do reino, empurrado por um problema que não encontrava solução. Diziam existir lá um sábio, mas para além dos sons dos lúgubres pássaros que o mantinham alerta, não encontrou ninguém, bem… não encontrou quem imaginava.
Guiado por um cantar gracioso, surgiu-lhe uma menina muito curiosa e de olhos grandes. Aproximou-se cuidadosa da descomunal criatura e cumprimentou-lhe com um sorriso contagiante. Igor por seu lado com seus doces traços, rendia qualquer um até perder o receio perante seu considerável tamanho.
- Eu sinto-me só. – Começou a miúda a falar. – Sou pequena, passo facilmente despercebida e minha voz raramente se consegue fazer sobrepor ao mar de outras vozes.  
O gigante apesar de habituado ao carinho das pessoas do vale, foi surpreendido com aquele à-vontade invulgar. Seu desconforto pela floresta desapareceu. Igor de natureza simples, levou algum tempo até perceber que partilhavam o mesmo problema que o levava ali, solidão.
Explicou aos ouvidos que se tinham disposto a escutá-lo, a razão para estar ali. Queria encontrar uma resposta para a sua solidão, mais que isso, queria encontrar maneira de a curar.
A pequena ouviu-o atentamente de cara singela e acabou retorquindo:
- É fácil para um gigante se sentir só. Todas as outras vozes se tornam distantes e baixinhas, quase incompreensíveis. Pensamento nas nuvens e olhar sempre no horizonte. Consegue percorrer grandes distâncias, mas abranda o passo só para se fazer acompanhar. – Anuiu.
Antes de perceber como, a menina sorridente toca-o no ombro e sussurra-lhe:
- Da próxima vez que te sentires só, não penses em ti como este verme – apontou para um tronco caído – O seu mundo é populoso e pode ser acidentalmente pisado. – Sorriu.
Igor esforça-se para enxergar os insetos que lhe eram apontados, mas volta sua atenção ao seu redor, para perceber se ela tinha crescido ou ele encolhido, só que uma névoa cercava-os. 
- Prefiro então ser igual a todos só para não me sentir só. – Vozeirou o gigante.
- E porque quererias tal disparate? Como é que alguém repararia em ti se fosses igual a toda a gente? – Afagou-lhe a face. – Coragem para ti é medida de maneira diferente, porque o que para todos é um passo de gigante, para ti é só andar. És o primeiro a visitar-me em mais de cinco décadas. - Sorriu.
A expressão na cara de Igor mudou como se não totalmente convencido e quando veio a si, a menina tinha desaparecido com a névoa e viu-se cercado pelas mesmas aves que o mortificaram no inicio.
- Sê tu mesmo. Mais do que grande, és grandioso. – Ecoou uma voz grave pela floresta.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O Reino Gélido

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Era uma sala do trono gélida de um frio quase insuportável.
Vinte e quatro homens permaneciam imóveis, só a névoa de cada exalação dava indício de ainda estarem vivos. Vinte e quatro nobres, alguns de berço, outros através das suas proezas, todos valorosos. Heróis dos vários recantos do reino.
A sala era ampla e circular com uma cúpula sustida por dez pilares altos, que deixava passar uma ténue luz azul. As paredes foram sendo gravadas por artesãos ao longo da linhagem real, com feitos heróicos, batalhas triunfantes, criaturas fabulosas, sigilos e até de histórias de amor. Não existia um único espaço a preencher. A Úrsula a rainha atual coube o trono talhado de uma única pedra, sitio onde permanecia agora sentada e estática. Ali a roda do tempo parou, houve uma rotura no reino e este congelou.
Vinte e quatro notáveis para escolher como rei e uma alma que não devia estar ali, um servo... ela escolheu-o a ele. Não era suposto ser visto através de tanto músculo e armadura cintilante, mas ela escolheu-o. Ela viu-o a ele, de zé-ninguém a homem e ele viu-a a ela, de rainha a mulher.
Úrsula era de uma beleza inigualável que nem mesmo os vícios incutidos pelo frio, como a pele esbranquiçada, os lábios roxos ou o cabelo húmido conseguiam disfarçar.
O reino precisava de uma união forte sob pena desta mesma maldição. O sentimento de Ursula deu ao servo um poder que não soube controlar, corrompeu-o.
Um vulto negro movia-se devagar por entre aquelas figuras tão nobres. Uma criatura que não pertencia nem a este nem ao outro mundo. A rainha levanta-se, atraída ao seu chamamento e degrau após degrau foi ao seu encontro. Era sempre assim, dia após dia e o ritual demorava apenas alguns minutos. No sopé do trono entregava-se e ambos eram consumidos.
O seu era um amor egoísta, tinham consciência disso, mas tinham-se tornado visíveis nem que fosse só um para outro e pela primeira vez desde à muito tempo, eram eles mesmos. 


domingo, 13 de outubro de 2013

Lua Minha

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Numa terra longínqua, bem para norte, onde os dias são curtos e as noites demoradas, existia uma floresta densa, cheia de mistério, que muitos acreditavam encantada. A alguns anos atrás, naquele mesmo lugar, não havia nada mais que uma simples planície cortada por um rio, onde o arvoredo era escasso e esporádico pelas suas margens. Agora a planície dava lugar a este imponente labirinto.
Esta floresta era composta, tanto, por árvores nativas, como exóticas. A uniformidade da madeira demarcava-a, claramente, de todas as outras florestas, debaixo dos desígnios aleatórios da natureza. Era um habitat de muitas espécies que, ou se adaptaram à mudança drástica do ambiente, ou foram atraídas ao que lhes pareceu o lar ideal. De qualquer forma, depois de lá dentro, era-lhes impossível sair, enclausurados numa área que lhes parecia infinita. 
O clima era agreste. Com as manhas vinha a bruma, já as tardes eram empurradas por um vento que revelava o enigma por detrás da neblina. As noites eram o contraste, com uma quietude bem-vinda. Era na noite, que a floresta atingia o expoente da sua beleza, era nela, que Ele se sentia confortável, diziam todos.
Entre os animais, subsistia uma lenda. Acreditavam que aquele lugar tinha sido plantado por um único ser, ao qual chamavam de, Jardineiro. Isso nunca foi testado claro… até agora. Três representantes, três animais escolhidos, para descobrir a verdade, um urso, um pavão e uma coruja.
Dizia-se que o Jardineiro vivia no centro da floresta e, foi para lá que a demanda os levou.
Depois de várias provações, tempestades, cheias, fome e doença, suas persistências prevaleceram e, atingiram o seu destino. O que os esperava deixou-os atónicos, deram consigo numa clareia, óbvia raridade naquele arvoredo cerrado. A luz, pálida, que os envolveu, era-lhes estranha, desenhava-lhes sorrisos  e, quase lhes serviu de prova para uma magia superior. Haviam dois rochedos que germinavam do solo e um lago no centro da clareira. A erva estava húmida, inclinada pela pequena depressão, daí o lago.
O pavão, embora maravilhado, fascinou-se como a luz lhe realçava a plumagem.
A coruja pensou, na sorte daquele lugar o ter ali, de como só um dos seus poemas poder fazer juízo à sua beleza.
E o urso, bem o urso, ficou a contemplar a clareira, nunca tinha visto uma antes, nem sabia descrever uma até aquele momento, aliás, acho que não o saberia fazer mesmo depois de estar numa.
No topo de uma das pedras, viram uma criaturinha, que oferecia seus pensamentos à água.
Os três animais entreolharam-se. Não podia ser ele o, magnifico, Jardineiro. O pavão viu uma criatura de uma fealdade comum, ou nem isso. A coruja, um ser como todos os outros, intelectualmente inferior. E para o urso, o animal à sua frente, pareceu-lhe demasiado frágil e débil para ser o criador de tudo. Aguardaram então.
A noite passou, os sonhos foram bons, mas se há algo que aprenderam nesta viagem longa é que, nada é dado que não vá voando. Os animais que não estavam habituados à luz do sol, sem a proteção das árvores, acordaram com os primeiros raios.
Refrescaram-se no lago e esperaram mas, o dia não troce melhores respostas que a noite e, embora bonito, a “magia” do lugar parecia ter desaparecido. Frustração instalava-se. "Que faziam ali?", questionavam-se os três. Só porque não encontraram o que queriam, não quer dizer que não tenham encontrado a verdade.
A lembrança do lar puxava-os para uma decisão, que, os animais fatigados não puderam resistir. Até a criaturinha havia desaparecido. Optaram por regressar a casa.
Ao embrenharem-se finalmente na floresta, questionavam-se, agora que sozinhos, livres do bom senso que os impediu, quando na companhia do alvo que queriam criticar: "Que espécie de animal seria aquele?"
Estranho comportamento tinha. Irritadiço quando apareceram, demasiado fixado no lago, que até a eles lhes contagiou, e de manhã, longe de ser encontrado.
Pareceu-lhes o único verdadeiro mistério a resolver, depois de tamanha demanda.
O pavão arriscou tratar-se de um roedor, por causa dos seus dentes, arrepiou-se.
A coruja lambeu-se, com tal menção. Já não tinha uma refeição decente há três dias. Sentiu saudade do seu território, abundante em comida, saudades da caça. Nasceu-lhe um brilho no olhar. Contrapôs, esboçando um sorriso, janela indecifrável para um novelo de pensamentos. Embora pudesse apostar ser um primata, não pode deixar de troçar, e dizer, tratar-se de um jumento. Riram todos.
Ao urso pareceu-lhe um coiote, pois nem porte de lobo tinha. Espécie irritante, que vivia á custa dos predadores de grande porte roubando-lhes a comida.
Fosse o que fosse, os animais não conseguiram chegar a uma conclusão definitiva. A criatura na clareira, era demasiado diferente aos olhos de cada um. Pois cada um, demasiado confiante nos seus atributos, via, com arrogância, o oposto de si naquela criatura.
Longe já ia o trio, quando, a clareira acolheu novamente o seu residente. A noite voltou, e o ser concentrou-se no céu, não no lago, que só refletia a verdadeira peça de sua admiração.
- De dia prefiro as sombras e de noite sinto-me confortável. O meu é um caminho solitário, mas tu o iluminas. Escondes-te por detrás das nuvens, e sinto-me perdido, sustenho a respiração até reapareceres. Plantei toda esta floresta, este chapéu, para que mais ninguém te pudesse contemplar, lua minha. Se ao menos conseguisse, também, soprar cada nuvem que cruelmente te esconde de mim.  – Declarou-se o homem ao foco da sua paixão.  


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Sereia

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Aproximei-me dela, tanto fascinado como temente. Ao longe ainda via o meu navio a afundar - O Corvo Veloz. Tinha passado praticamente a minha vida toda nele, como o explorador incessante.
O cenário à minha volta era macabro, afastava, com o único remo que me restava, os ossos de marinheiros afogados do passado; eram tantos, nenhum lhe resistiu. Meu bote metia água e a maré parecia conspirar para me levar ao seu encontro. Aceitei o meu destino.

Ela harmonizava uma bela melodia, mas não me sentia sob nenhum feitiço,  (estaria enganado?). A sua beleza ia para além de todos os relatos conhecidos. Olhou para mim e sorriu, mas não disse muito, invés disso brincava com os dedos na água.
Constrangido fiquei ali à espera, mas nada. Não me puxou para o fundo do mar, não devorou o meu coração, não me deu o famoso beijo mortal. Por fim, ganhei coragem e perguntei-lhe:
- Porque não sucumbo ao teu cântico como todos aqui?- A voz saiu-me trémula.
Que burro, pensei. Porque quereria eu apressar a minha morte? Ganhei no entanto a sua atenção. Expectante, lutei para manter o meu olhar no dela sem sentir o peso da sua beleza, por fim ouvi sua voz doce.
- Porque o meu silêncio faz-te bem mais mal. – Suspirou.

domingo, 15 de setembro de 2013

O sapo que sonhava ser um príncipe

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Certa vez, havia um sapo que vivia num charco com uma torre como vizinha.
Este parecia ser um sapo como tantos outros, ele comia moscas, coaxava e saltava como todos da sua espécie. Havia só uma pequena diferença. Acreditava ser o produto de um conto de fadas, um príncipe preso no corpo de um sapo.
Não o sabia explicar bem, apenas sentia-o.
Guardava esses pensamentos para si, pois sabia que os outros diriam trombudos: “Não existem contos de fada.”
Se ainda não notaram, o nosso amigo sapo tem uma imaginação fértil. No lugar da torre decrépita, conseguia ver um castelo, cavaleiros, dragões e belas donzelas. Tolices, diriam todos na sua família.
Certa noite, viu uma estranha luz emanar do topo da torre e com ela a mais bela melodia que já tinha ouvido.
Seria este um sinal? Sim! Era tão óbvio. Porque razão estaria ali uma torre, senão para fechar uma princesa (pensou)?
No seu contentamento coaxou, mas estacou assim que tudo ficou em silêncio. Teria amedrontado a sua amada? Mas não, devagar, mas firme começou a cantar outra vez. E assim continuaram em simultâneo, largas foram as noites.
Uma vez, com a lua cheia assistir, o sapo pareceu confuso ao ver uma jovem humana na margem. Curioso, mas cauteloso aproximou-se.
- És o meu príncipe? – Perguntou ela.
O anfíbio olhou e viu os lençóis pendurados pela torre. O seu coração pulou!
É sabido que as princesas nas torres não estão verdadeiramente presas, meia dúzia de lençóis amarrados uns aos outros e ficam livres por sua conta. Não, uma princesa numa torre não está presa, mas á espera de ser resgatada.
Olhou a jovem outra vez. Tinha grandes olhos (característica muito apreciada pelos sapos) e um cabelo encantado que mudava consoante o seu humor.
- És o meu príncipe? – Perguntou outra vez. Claramente sabedora dos contos de fadas.
O sapo anuiu. A princesa bateu palmas, cresceu um sorriso e seu cabelo ondulou-se.
Consertou a voz, endireitou a postura.
- Meu doce príncipe, parece que estamos ambos a precisar ser resgatados.
Debruçou-se sobre ele, pegou-lhe gentilmente e agiu com o melhor do seu conhecimento para o quebrar de um feitiço com um beijo.
- Magia. Existe mesmo! – Palavras invés do rouquejar.
A alegria da confirmação quase que superava a maravilha da transformação.
Pernas longas, orelhas, dentes, era agora um humano.
Sentiu-se tonto no entanto, tão longe do chão. Não foi preciso muito tempo até tropeçar e cair. Um coro de vozes ouviu-se do charco, já se sabe que é norma todos os que caem serem motivo de chacota. O diferente é uma princesa de joelhos na lama a encorajar que alguém se levante com um doce afagar na face.
Grandes olhos, grandes expectativas, pareceu-lhe ver.
De pé novamente e sentiu-se desconfortável, desta vez com as suas roupas espalhafatosas, cores alegres não lhe pareciam combinar. Até a coroa lhe ficava torta tapando-lhe os olhos.
Foi aí que um terrível pensamento se abateu sobre o nosso amigo: E se invés de um príncipe, fosse apenas e só, um sapo que sonhava ser príncipe?
Tão rápida como a transformação foi a regressão ao seu estado original. Medo é uma maldição poderosa, uma que só pode ser vencida de dentro para fora.
O cabelo da princesa caiu liso. O sapo fitou aqueles olhos grandes e ainda bem que já não podia falar (fungou).
E então o sapo rastejou para o seu charco e a princesa subiu a sua torre.
A coroa mingou, mas permaneceu na cabeça do sapo, que ficou para sempre como o sonhador que não se deixava viver seus sonhos.